Subtracionismo: O Conceito de subtração em Produtos Digitais

Subtracionismo: O Conceito de subtração em Produtos Digitais

Muitas equipes de produto acreditam que adicionar mais funcionalidades significa entregar mais valor. Afinal, inovação costuma ser associada a novos recursos e extensas listas de funcionalidades nos lançamentos.

Surpreendentemente, porém, cerca de 80% das funcionalidades de um software típico são raramente ou nunca utilizadas pelos usuários (fonte: Pendo), ou seja, a maior parte do que se constrói acaba virando enfeite digital, sem gerar benefício real. Consideramos esse dado alarmante, ele reflete um enorme desperdício de esforço de desenvolvimento e pode até prejudicar a experiência do usuário: interfaces sobrecarregadas ficam confusas, e funcionalidades extras exigem manutenção contínua sem retornos evidentes.

Em resumo, mais nem sempre é melhor. Diante disso, alguns times de UX e empresas de produtos e apps estão adotando uma estratégia contraintuitiva: em vez de continuamente somar, elas aprendem a subtrair funcionalidades.

O paradoxo das funcionalidades não utilizadas

O cenário é paradoxal. Organizações investem milhões em P&D para lançar novidades, mas uma parcela mínima dos recursos acaba concentrando quase todo o uso ativo. Em 2019, um estudo de adoção de funcionalidades identificou que 80% dos recursos desenvolvidos eram pouco ou nunca usados, estimando-se em US$ 29,5 bilhões o montante gasto por empresas de software em funcionalidades que acabaram na prateleira.

Além do dinheiro, isso representa centenas de milhões de horas de trabalho de engenheiros e designers dedicadas a itens que os clientes ignoraram.

Por que esse fenômeno é problemático? Primeiro, funcionalidades excedentes aumentam a complexidade do produto. Pense em algum aplicativo ou sistema que você use e reflita: quantos botões, menus ou opções estão lá apenas acumulando poeira digital?

Essa complexidade torna a interface menos intuitiva e pode afugentar usuários, não por falta de capacidade do produto, mas por excesso de elementos distraindo do que realmente importa. Em muitos casos, acrescentar mais features pode até reduzir a satisfação: o valor principal fica diluído no meio do “barulho”.

Um exemplo clássico foi o do tocador de mídia iTunes na época em que a Apple o carregou de funções e integrações a ponto de sua função básica (tocar músicas) ficar soterrada em meio a tantas abas e opções. Enquanto isso, produtos que se destacam pela simplicidade e foco, como o Nest ou o primeiro iPod, conquistaram usuários justamente por fazerem menos coisas, de forma excelente. O excesso de recursos mal utilizados não é apenas inócuo; ele pode atrapalhar.

Por que continuamos adicionando sem parar?

Se “mais funcionalidades” trazem tantos contras, por que as organizações insistem em inflar seus produtos? Há diversas razões. Uma delas é cultural: vivemos na cultura do excesso, na qual oferecer mais opções parece sinônimo de produto superior. Como disse o designer Mike Monteiro, “simplicidade é subtração“, porém, muitos temem remover ou deixar de adicionar elementos porque qualidade costuma ser associada à quantidade.

No imaginário corporativo, lançar um upgrade “com 50 novas funcionalidades” soa mais impressionante do que dizer que a próxima versão terá menos recursos (mesmo que mais utilizáveis!).

Departamentos de marketing e vendas pressionam por novidades para mostrar progresso aos clientes e ao mercado. Equipes comerciais pedem funcionalidades específicas para fechar um contrato, ainda que esses recursos atendam apenas a casos isolados.

E internamente, times de engenharia e produto historicamente foram recompensados por entregar features, não por melhorar a usabilidade das existentes. Esse contexto cria um ciclo vicioso: roadmaps lotados, pouco espaço para reflexão, e nenhuma pausa para perguntar “precisamos mesmo de tudo isso?”.

Outra razão é cognitiva.

Pesquisas em psicologia indicam que, ao tentar melhorar algo, nossa tendência instintiva é pensar em adicionar elementos, não em remover. Em um estudo publicado na revista Nature em 2021, participantes de diversos experimentos raramente sugeriram soluções por subtração espontaneamente, a ideia de simplificar pela remoção praticamente não lhes ocorria, a menos que fosse explicitamente provocada.

Esse viés cognitivo significa que tanto indivíduos quanto organizações costumam negligenciar opções em que menos é mais, simplesmente porque estão acostumados a atacar problemas com acréscimos.

Além disso, há a aversão à perda: retirar uma funcionalidade existente (ou abandonar uma ideia planejada) pode dar a sensação de perda de investimento. Equipes muitas vezes pensam “já gastamos tempo nisso, então melhor deixar aí”, mesmo que esse item pouco agregue valor.

Assim, recursos subutilizados vão se acumulando como tralha em um sótão, difíceis de jogar fora. Em suma, temos tanto um impulso natural quanto incentivos institucionais nos empurrando a continuar adicionando, quando talvez devêssemos estar removendo.

Adotando a mentalidade da subtração

Que tal virar o jogo e abraçar uma mentalidade de subtração? Essa abordagem propõe melhorar produtos removendo o desnecessário, refinando a experiência ao invés de inchá-la.

A ideia não é nova, o autor Antoine de Saint-Exupéry já dizia que “a perfeição é alcançada não quando não há mais nada para adicionar, e sim quando não há mais nada para retirar“.

Grandes referências de design adotaram esse mantra ao longo do tempo. O arquiteto Ludwig Mies van der Rohe cunhou o célebre “menos é mais“, enfatizando que a elegância vem da essência. No contexto de produtos digitais, isso significa focar nas funcionalidades que realmente resolvem o problema do usuário e oferecer uma interface limpa, sem distrações.

Praticar o design por subtração envolve um exercício consciente de priorização. Produtos verdadeiramente intuitivos costumam seguir o princípio de minimalismo funcional: remover elementos e conteúdo que não suportam diretamente as tarefas do usuário.

Em outras palavras, cortar o supérfluo para realçar o essencial. Um exemplo notável é a história do Instagram. A plataforma nasceu como um aplicativo chamado Burbn, que era carregado de recursos (check-ins de localização, gamificação etc.).

Ao observar o comportamento dos usuários, os fundadores perceberam que quase ninguém ligava para a maioria daquelas funções, o que engajava mesmo era compartilhar fotos.

Tomaram então a decisão corajosa de remover tudo exceto o compartilhamento de fotos e filtros de imagem. O resultado? Uma experiência simples, focada e viciante, que escalou para centenas de milhões de usuários e transformou o Instagram em um sucesso mundial.

Esse caso ilustra como subtrair pode acrescentar valor: ao eliminar o que não agrega, você destaca o que importa e cria um produto mais forte.

Claro, adotar a mentalidade da subtração não significa rejeitar inovação ou deixar de evoluir o produto. Trata-se de ter clareza do propósito de cada funcionalidade e coragem para podar aquilo que não serve a esse propósito.

Muitas startups e empresas modernas já incorporam esse pensamento em seus processos: antes de sair codando, questionam se um novo recurso é realmente necessário. Após lançamentos, monitoram atentamente o uso real e estão dispostas a iterar (ou até remover uma feature) em prol da simplicidade e da qualidade da experiência.

O que os times de UX deveriam fazer de diferente?

Equipes de produto mais maduras e bem-sucedidas hoje tendem a adotar práticas que evitam a armadilha do inchaço de features. Algumas das abordagens que as diferenciam incluem:

Foco em valor, não em volume

Times eficazes medem sucesso por métricas como adoção, engajamento e satisfação do usuário, em vez de celebrar apenas o número de novas funcionalidades entregues.

Se um recurso não está trazendo uso ou melhora na vida do cliente, ele perde prioridade ou é descontinuado. Menos funcionalidades, porém mais úteis, valem mais do que um pacote cheio de extras que ninguém usa.

Validação antes da construção

Em vez de apostar tudo em grandes lançamentos “all-in” de seis meses, essas equipes experimentam cedo e frequentemente. Ideias de novos recursos são testadas por meio de protótipos, MVPs ou lançamentos limitados.

Só se investe pesado em desenvolver algo após evidências de que os usuários realmente querem/precisam daquilo. Essa abordagem enxuta evita gastar meses criando funcionalidades que depois seriam ignoradas.

Medição contínua de uso

Após implementar um recurso, equipes maduras acompanham de perto quem está usando, com que frequência e com que resultado. Ferramentas de análise de produto (como Pendo, Amplitude etc.) fornecem dados claros sobre a adoção de cada funcionalidade.

Se a utilização é baixa, soa um alarme: ou o recurso precisa ser aprimorado para ser mais útil, ou talvez deva ser removido para simplificar o produto. Nada de “lançar e esquecer”, cada feature permanece sob análise contínua pelo valor que entrega.

Iteração e melhoria contínua

Produtos excelentes não nascem perfeitos, mas evoluem ouvindo os usuários. Equipes de sucesso mantêm um diálogo próximo com a base de clientes, seja através de feedback direto, entrevistas ou observação de comportamento, para entender onde há atrito ou necessidades não atendidas.

Em vez de simplesmente empilhar novas coisas em cima das antigas, eles se concentram em melhorar o que já existe, polindo funcionalidades básicas e refinando fluxos. Novidades só são adicionadas quando realmente fazem diferença. E se um recurso lançado não correspondeu às expectativas, eles não hesitam em ajustá-lo ou eliminá-lo.

Cultura de coragem para subtrair

Por fim, há um elemento cultural importantíssimo. Times eficazes cultivam a ideia de que remover não é fracasso, e sim parte natural do processo de tornar o produto melhor. Celebram-se casos em que simplificar trouxe benefícios. Líderes de produto e design comunicam claramente o porquê de retirar certa funcionalidade (por exemplo, “unimos duas ferramentas similares numa só, mais poderosa e simples”).

Essa transparência ajuda os stakeholders (internos e externos) a entenderem que cada decisão de corte visa foco e qualidade, não estagnação. Ao dar exemplo “podando” funcionalidades desnecessárias, líderes encorajam suas equipes a sempre pensar no que poderia ser simplificado.

No mundo da tecnologia, é tentador querer acompanhar concorrentes ponto a ponto em funcionalidades e atender cada pedido de cliente adicionando algo novo.

Mas os produtos verdadeiramente memoráveis costumam seguir outra via: excellem no fundamental e evitam o supérfluo. Adotar a mentalidade da subtração exige mudança de perspectiva e, muitas vezes, coragem para ir contra o instinto de sempre somar.

Os benefícios, contudo, ficam claros nos números e na satisfação dos usuários – menos complexidade, mais clareza, mais valor entregue de fato. Leonardo da Vinci também tem uma frase que diz que “a simplicidade é o último grau da sofisticação”.

Em produtos digitais, talvez a sofisticação máxima esteja justamente em saber tirar de cena o desnecessário e brindar o usuário com a experiência mais direta e intuitiva possível. Em suma: menos é mais, e é importante lembrar sempre que remover também pode ser o melhor design.

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